UNIVERSIDADE DE ÉVORA
DEPARTAMENTO DE PEDAGOGIA E EDUCAÇÃO
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO - AVALIAÇÃO EDUCACIONAL
PORTFÓLIO
Disciplina: Avaliação e Desempenho Profissional
Docente: Profª Isabel Fialho
Aluna: Nadiege do Socorro Jardim da Silva
Belém - Pa
Junho/2010
INTRODUÇÃO
Este material faz parte de uma proposta de avaliação da disciplina Avaliação e Desempenho Profissional. Estruturou-se num grupo de estudos, onde discutimos sobre vários exemplos de portfólios e chegamos a conclusão de que é um instrumento capaz de demonstrar uma caminhada de aprendizagem.
Para a construção deste instrumento, desconstruí alguns conceitos e, nesta desconstrução apareceram muitas dúvidas, sendo a principal a questão: como organizar um dossiê demonstrativo de registro de ação pedagógica possuindo uma extensa caminhada de vida profissional e, no momento, distanciada do ambiente escolar?
A resposta foi o próprio mestrado: registrar o que estava sendo significativo na caminhada do curso e, para isso, teria que remexer as anotações, os materiais já guardados, as lembranças dos momentos passados.
O trabalho ficou pronto e foi dividido em três partes. A primeira são os Caminhos Iniciais, onde estão expostas reminiscências de minha vida profissional, citando alguns momentos mais significativos. A segunda, Perspectiva do Mestrado, onde relato o fato que me trouxe de volta aos estudos. Na terceira parte, Retorno à Sala de Aula, aventuro-me a relembrar fatos de cada uma das onze disciplinas que fazem parte desta caminhada ao título de Mestre em Ciência da Educação.
1. CAMINHOS INICIAIS
Meu nome é NADIEGE DO SOCORRO JARDIM DA SILVA, sou licenciada plena em pedagogia desde o ano de 1986, com habilitação em administração escolar e orientação educacional, especialista em gestão escolar e informática educativa. Em 1996 conclui a faculdade de Direito, porém nunca exerci a função, pois já havia sido fisgada pela educação e nela vivo há exatamente 28 anos.
Iniciei minha carreira na educação como professora alfabetizadora durante dezessete anos e, durante este período, Alves (1994) me fez perceber que “aprende-se para não precisar pensar” (p.28). Entendi que ler é uma atitude própria do ser humano, portanto não há motivos para submeter o leitor a experiências – é só ler, porque a ação de alfabetização é proporcionar ao aprendiz da leitura a própria leitura. É claro que esta conclusão me foi esclarecida por um árduo percurso em que tive grandes companheiros: colegas de trabalho, minha mãe – professora e, muitos, muitos erros.
Em 1988, fui convidada a assumir a direção de uma escola pública estadual. Com apenas cinco anos de profissão e 23 anos de idade este era o maior desafio de toda minha vida e admito que até hoje o considero como tal. Nessa função fiquei até 1998 e nela aprendi (Lenhard, 1978) a importância da comunicação, a necessidade de uma ação planejada em conjunto, a singularidade da organização e da descentralização, a utilidade da incentivação ao comprometimento, a inevitabilidade da burocracia, entre outras.
As mudanças nos governos me fizeram ter saudade da sala de aula e para ela retornei. Trabalhando com alunos de ensino médio e com formação de professores.
Em 2000, fui convidada a fazer parte de uma escola especializada em deficiência intelectual. Nesta instituição fui apresentada a uma realidade diferente de tudo o que havia feito. Fazia parte de uma equipe multidisciplinar que trabalhava com a habilitação e a reabilitação da pessoa deficiente. Tal realidade colocou-me diante de uma situação que só conhecia pela teoria: a descriminação do diferente. Fui arrebatada pela causa, mas para isso tive que reunir posicionamentos nas diversas áreas do conhecimento tentando compreender os conceitos antagônicos sobre deficiência intelectual. Dentre as discussões a questão da inclusão é pauta principal, não como uma obrigação legal, afinal a Constituição Federal de 1988 (Brasil, 2000) preconiza que a educação prepare o cidadão para o exercício da cidadania e o pleno desenvolvimento como pessoa (art. 205), mas como uma consequência de aprimoramento das escolas ao atendimento dos alunos de um modo geral, visando a qualidade de ensino.
Na caminhada, hoje em dia, trabalho em dois órgãos diferentes: Estado e Prefeitura, exercendo funções variadas. No Estado sou orientadora educacional, responsável pelo acompanhamento de alunos com deficiência intelectual em escolas regulares; na Prefeitura exerço a função de coordenadora educacional responsável pela organização de dois turnos de uma escola na periferia de Belém.
2. A PERSPECTIVA DO MESTRADO
Em 2009 a rede estadual promoveu um concurso público e as escolas ganharam dezenas de professores recém-saídos das universidades. Este fato proporcionou o preenchimento das vagas nas escolas que há tempo sobreviviam com um quadro profissional incompleto, mas trouxe também um embate entre a realidade dos antigos funcionários e a teoria dos novos concursados, entre a prática e a expectativa da ação dos professores já lotados com a falta de idealismo dos novos professores.
A equipe que entrava trazia novidades e, no exercício da função, necessitava organizar e dirigir situações de aprendizagem, administrar a interrelação em sala de aula, envolver os alunos com o conteúdo, trabalhar em equipe, informar e envolver a família dos alunos, utilizar novas tecnologias objetivando o desenvolvimento do conteúdo para a aprendizagem, enfrentar os dilemas éticos da profissão de educador.
Na tentativa de moderar esta situação: a ausência de resiliência entre o grupo de professores estava a equipe técnica da qual eu fazia parte e, a proposta, foi realizar um ciclo de formação e atendimentos individual e em grupo, porém apareceu uma barreira dentro do próprio grupo responsável pela formação e equilíbrio e, em seguida, surge um problema maior: a questão da gestão.
Nesta realidade decidi que necessitava buscar caminhos para não perder meu equilíbrio pessoal, conservar minha posição profissional reconhecida no meio e continuar com as relações harmônicas que havia feito durante o tempo em que lá trabalhava.
Surgiu a oportunidade de retornar aos estudos, servindo para visualizar um mundo de possibilidades.
3. RETORNO À SALA DE AULA
Chegou o dia: 23 de abril de 2010 – Início das aulas de Mestrado. Meu primeiro olhar na sala de aula do curso foi para a heterogeneidade dos colegas. Eram artistas, professores de física, de geografia, matemática, língua portuguesa, língua inglesa, jornalista,...
Dá-se inicio à aula com um sotaque português vindo de uma voz doce, mais firme. A disciplina: Investigação em Educação, onde são expostas as linhas de investigação do curso e surge a pergunta: O que é investigar? Vários são os conceitos trabalhados em sala e, na agitação dos colegas, eu apreendo que a investigação tem uma função social e possui necessidade de ser feita de forma sistematizada. São apresentados os principais paradigmas em investigação, os colegas remexem-se inquietos e minhas dúvidas aumentam. Antagonismo ou complementariedade? Generalização ou objetividade? A professora lança as questões e percebo o quanto me custaram todos estes anos fora da sala de aula.
Sou apresentada a American Psychological Association – APA, uma normatização que não conhecia, aliás, percebo que tenho que procurar saber muita coisa a partir de agora. Mais conceitos são lançados: investigação básica, considerações éticas na investigação, as armadilhas com as quais nos deparamos numa pesquisa, as etapas do processo investigativo,... Neste momento o grupo de alunos já possuía algo em comum: muitas dúvidas e isso fez com que houvesse as primeiras identificações pessoais que nos levaram ao nosso primeiro café da manhã, fazendo-nos parecer que todo o conteúdo não era assim tão assustador, pois a senhora de voz firme apreciou o gesto e ria de nossos medos e apreensões, acalmando-nos. O trabalho final foi um projeto de investigação onde iríamos utilizar todo o conteúdo informado naquelas, agora vistas como curtas, horas de estudo.
Rapidamente passa o tempo, aliás, é característica do tempo passar sem nos avisar de sua passagem. Somos apresentados a um senhor muito sério e seguro de si, na disciplina Filosofia da Educação, que nos assusta com uma pergunta simples: O que é Educação? E percebo o quanto sabemos tudo até sermos questionados sobre este tudo. As aulas são repletas de discussões, muitas são as ideias trabalhadas, e como aquele professor cresce, encorpa, lançando pérolas filosóficas: (Dias, 2010) “O conhecimento é efêmero”; “O subjetivo é que constrói o mundo. Todos os deuses são permitidos”; “Quanto vale R$2,00? – Vale o quanto eu quiser que valha!”; “Eu, pessoa, sou obrigada a ser, pois quando da vida eu sair, ficará meu testemunho”; “A sala dos professores não pode ser o feudo do mundo”; “É necessário que nós nos reinventemos a cada fase do caminho”; “O professor não pode ser um viúvo de todos os enterros”; “As pessoas não querem ser números, querem ser pessoas”; “Para a reflexão é necessário o silêncio”; “Beleza é igual a talento: vê-se logo”; “O outro é um infinito”; “É necessário tudo a todos de todas as maneiras possíveis”; “A escola não deve simular a vida, a escola deve ser a vida”... Cada frase lançada agita o grupo, a sala ferve e vejo a minha frente a delícia de ser um bom professor e lembro de Alves (1994) identificando o corpo como um lugar onde adormece um universo que é acordado pelo poder das palavras e essas são mágicas, pois (Alves, 1994) “é no lugar onde a Palavra faz amor com o corpo que começam os mundos” (p. 53).
Durante um dia de muito sol, acontece a terceira disciplina. Entro na sala e vejo uma linda mulher com um sorriso tímido diante de tantos rostos curiosos. A disciplina é Avaliação de Organizações Escolares e a pergunta inicial feita é: O que é Avaliação? Pergunta que é desenvolvida utilizando a ideia de processo que delimita, obtém e fornece diagnóstico que irá possibilitar uma tomada de decisão. A aula é desenvolvida de forma muito didática e estruturada, seguindo rigidamente ao programa entregue aos alunos da turma. Somos apresentados ao Common Assessment Framework (CAF), uma ferramenta de avaliação utilizada pela Europa, o que me fez lembrar o processo de avaliação submetido pelas escolas públicas para a aplicação do Plano de Desenvolvimento Escolar em 2009. A turma já está formando grupos pequenos de acordo com os interesses individuais.
Outubro vem trazendo a festa de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Estado e a quarta disciplina: Teorias e Modelos de Avaliação Educacional. Acompanhada pelo programa da disciplina distribuído, sinto-me perdida na exposição que acontece na sala e, chamada a pensar sobre a frase: (Bonito, 2010) “cada ação exige um cumprimento de metas”, fico em dúvida sobre qual é a meta que me está sendo cobrada e de que forma será esta cobrança. Socorre-me a quadra (Quintana, 2007) “Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o. Com ele ia subindo a ladeira da vida. E, no entretanto, após cada ilusão perdida... Que extraordinária sensação de alívio!”.
O tempo passa como um louco e com ele os preparativos para mais cinco disciplinas, porém com um diferencial: (Pessoa, 2001) “falta cumprir-se Portugal”.
Chegamos ao além-mar e somos apresentados a uma terra repleta de histórias que verei intercaladas com a minha própria história. Dá-se início à quinta disciplina: Avaliação de Programas e Projetos. Para o desenvolvimento dela recebemos de presente um educador para a liberdade, amante das palavras, que nos leva a passear num mundo repleto de descobertas e certezas, a turma vai a loucura, mas, infelizmente, neste momento, o tempo não nos ajuda e ficamos com a certeza de que (Sebastião, 2011) “o caminhante não faz caminho se não caminhar”...
Nossos caminhos cruzam com a simpatia responsável pela sexta disciplina: Avaliação e Desempenho Profissional. A pergunta retorna a pauta: O que é avaliar? Agora trabalhamos no âmbito do perfil da qualidade docente para que diagnostiquemos, controlemos, melhoremos e classifiquemos a ação do professor, melhorando a eficácia desta. Novamente o desenvolvimento estruturado do programa e o tempo nos ajudam a um melhor contato identificando novos amigos.
O tempo frio dói e faz aumentar a saudade, mas a caminhada continua e somos apresentados a uma figura frágil e tímida responsável pela disciplina: Avaliação de Currículos. Apesar da distância, sinto-me em casa, pois o conceito trabalhado me é conhecido: currículo, e a aula se transforma em um passeio por terras conhecidas.
O frio aumenta e somos colocados em uma situação dual: a tecnologia dentro de um espaço histórico. Era a disciplina: Avaliação de Recursos Educacionais desenvolvida numa sala secular com uma simplicidade própria dos grandes mestres que vem nos lembrar da importância da informação em sala de aula.
Já em contagem regressiva para o retorno aos braços da família, somos apresentados à disciplina Investigação e Avaliação em Educação, desenvolvida por um alentejano que nos proporciona um passeio poético pela vida do Alentejo e nos faz ficar com saudades desta nova terra recém-descoberta.
Durante o tempo que lá passamos, fomos apresentados ao sistema educativo de Portugal, levando-nos, inconscientemente, a comparação com o nosso. Também nos foi contada à história daquele local: Universidade de Évora. E aproveitei para participar de um sábado pedagógico, conhecendo o Movimento da Escola Moderna.
Assim passou-se o tempo e (Pessoa, 2001) “valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Refizemos o caminho dos descobridores e fomos recebidos carinhosamente pela família saudosa, pelo calor e pela chuva tropical. Mas a caminhada continuava e recebemos, já em nossa terra, um moçambicano tentando fugir do sotaque, expondo sobre Avaliação de Aprendizagem, deixando-nos questões pertinentes para nossa prática em sala de aula e sobre os resultados que almejamos com esta prática.
Com o sentimento de angústia, reencontramos nosso poeta/professor para desenvolver o Seminário de Acompanhamento e Apoio à Investigação. E quantas são as dúvidas expostas em sala. O que é? Como é? Como será? Pode? O suplício torna-se individual quando tomo conhecimento que deverei refazer todo o projeto apresentado e aí dá vontade de gritar: (Andrade, 2006) “Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução”.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
É prazeroso ver o trabalho que foi projetado, pronto. E o prazer torna-se maior quando este trabalho nos remete a uma turnê por nossas experiências, fazendo-me lembrar de Boff (1997) dizendo que “cada leitor é co-autor”, pois sinto-me autora e co-autora desta história.
Chegar até aqui foi uma caminhada difícil, pois inicialmente não sabia o que fazer com tantas histórias e tantas particularidades significativas ao longo destes anos de profissão.
A seleção foi difícil, pois antes passei em revista tantas outras histórias vividas nestes 28 anos de educação. Lembrei de escolas bem equipadas e outras nem tão equipadas para o desenvolvimento dos trabalhos planejados, de colegas com ideais que buscavam a mudança convivendo com colegas que já tinham se adequado ao pouco que era oferecido, lembrei também de alunos que me conceituaram como profissional.
Talvez a seleção que fiz – o curso de mestrado, não esboce todas as lembranças pelas quais eu caminhei nestes dias, mas (Boff, 1997) “todo ponto de vista é a vista de um ponto” e tinha que escolher uma abordagem. Acredito que fiz a escolha certa.
5. BIBLIOGRAFIA
Alves, R. (1994). A alegria de ensinar. São Paulo: Ars Poetica.
Andrade, C. D. (2006). Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record.
Boff, L. (1997). A águia e a Galinha. Petrópolis: Vozes.
Bonito, J. (2010). Apontamento das aulas de Teorias e Modelos de Avaliação Educacional. Portugal: Universidade de Évora.
Brasil. (2000). Constituição da Repúlblica Federativa do Brasil. São Paulo: Saraiva.
Dias, J. B. (2010). Apontamento das aulas de Filosofia da Educação. Portugal: Universidade de Évora.
Lenhard, R. (1978). Introdução à administração escolar. . São Paulo: Pioneira.
Neto, A. (2011). Apontamento das aulas de Investigação e Avaliação em Educação II. Portugal: Universidade de Évora.
Pessoa, F. (2001). Mensagem. São Paulo: Martin Claret.
Quintana, M. (2007). Quintana de Bolso. Porto Alegre: L&P Pocket.
Sebastião, L. (2011). Apontamento das aulas de Avaliação de Programas e Projetos. Portugal: Universidade de Évora.
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